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O tal do politicamente correto

Ouvi um podcast do Café Brasil onde critica-se o “politicamente correto” no dia-a-dia do brasileiro. Gostei muito de ter ouvido, não por ter compartilhado das opiniões, mas justamente por ter sido contrária a elas, o que fez com que eu me manifestasse .

Concordo com o fato de que apenas substituir termos mais brandos ou menos pejorativos não vai fazer com que passemos a ver a coisa em si de maneira diferente, apenas mascara e cria o que acredito ser hipocrisia.

É hipocrisia a pessoa que chama o negro de afro-descendente sem deixar de ser racista. Isso porque o negro em nossa sociedade é marginalizado, então, ser chamado de negro, mesmo sendo negro, soa ofensivo, o problema é maior porque re-significa o termo “afro-descente” absorvendo o preconceito pré-existente, o que também não resolve.

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Não concordo com o ativismo que quer calar expressões e “humoristas”. Posso considerá-los (e considero) preconceituosos e também achar suas piadas de péssimo gosto, mas mais uma vez, apenas proibi-los de falar não fará com que o preconceito desapareça. Temos que entender que eles refletem valores da sociedade na qual estão inseridos, ou seja, representam o pensamento de muitos brasileiros.

Se você colocar no Google campanhas publicitárias dos anos 50 e 60, verá coisas como homens batendo em mulheres e mulheres que são traídas por não usarem tal produto na higiene pessoal. Na época de nossos avós e até pais, ser castigado fisicamente na escola por professores era normal, fazia parte da educação, assim como colocar crianças ajoelhadas no milho e com orelhas de burro na frente de toda classe.
Salvo exceções, a grande maioria de nós, hoje, vê como essas situações são violentas, humilhantes e cruéis. Mas nem sempre pensamos dessa forma!
Para esses comportamentos serem aceitos, era necessária uma sociedade que pensasse comumente. E para deixar de serem aceitos, é necessário uma onda coletiva de reflexão.

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(1) Por que sua mãe não te lava com sabão Fairy?
(2) “Porque a inocência é mais sexy do que você pensa”

Quando achamos um exagero alguém dizer que “eu não sou tuas nega” é uma expressão racista, é porque anos atrás, achávamos exagero alguém que se sentia ofendido com um “preto quando não caga na entrada, caga na saída”.
Quando achamos exageradas as críticas sobre o filme 50 tons de cinza por ter conteúdo onde a mulher sofre abusos físicos, mas “faz tudo por amor”, é porque houve uma época em que achávamos que “mulher de malandro gosta mesmo de apanhar”.
Se hoje nos incomodamos com piadas do tipo “comeria ela e o bebê” e “homem que estupra mulher feia merece um abraço” é porque ríamos com encenações de estupros em programas de humor.

É chato ouvirmos tantas reclamações, vermos tanto policiamento.
É chato porque sair do comodismo não é divertido. Sair de sua visão para passar a ver o mundo do outro é muito desconfortável.
Eu não gosto, você não gosta.

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Não digo que agimos dessa forma por maldade, que falamos essas piadas com a intenção real de ofender alguém. É automático, estamos dentro dessa cultura, repetimos aquilo que ouvimos e fomos ensinados a vida inteira. Mas é por isso mesmo que é necessário esse momento de autoanálise e reflexão para notarmos que por anos, viemos repetindo sem pensar um conteúdo opressor e hierarquizante.

É possível fazer humor com qualquer conteúdo, até mesmo temas mais delicados, mas é necessário inteligência e auto-crítica para sair de sua zona de conforto e parar de repetir as mesmas piadas feitas por séculos pelos detentores do poder.
Não sou a favor da censura, mas quem falar o que quer, tem que arcar com “ouvir o que não quer”, sendo isso uma crítica ou até mesmo um processo. E essas “polêmicas” podem fazer bem para a sociedade que nunca pensou a respeito do assunto X ou Y.

O tempo dirá o que será e não será aproveitável dessa fase da “ditadura do politicamente correto”, onde muita gente vê pelo em ovo, mas que está fazendo com que vejamos com outros olhos expressões e situações que sempre nos foram normais.

Autor:

Leonina com ascendente em peixes! Formada em Artes visuais e especialista em Arteterapia Junguiana! Tem uma tatuagem com a frase de Godard e um mundo de opiniões sobre tudo!

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