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Resposta à “você é muito bonita”

No começo deste mês uma pesquisa bem interessante sobre cantadas foi publicada aqui na interwebs. Intitulada Chega de Fiu Fiu, a postagem rendeu bons (e péssimos) comentários vindos de todos os cantos.

Slut Shaming

Sem maiores delongas (eu deixo pra um post futuro), o texto abaixo foi escrito por Olivia Portela e representa exatamente o que eu pensei e penso e tudo o que eu queria sinceramente dizer para o jornalista André Miranda, o cara que escreveu este monte de asneira texto no site O Globo.

Achei interessante compartilhar principalmente pela reflexão que, tanto homens quanto mulheres, deveriam fazer sobre o assunto.

Vamos começar pelo começo: não me chame de menina. Eu não sou uma “menina”. Não sou uma criança, uma pessoa frágil, que precisa do seu afeto. Não pra meninos como você. Eu sou uma mulher. Pode deixar essa condescendência estúpida na mesma gaveta em que você parece ter trancado seu bom senso, menino.

Menino, deixa eu te contar: você é um imbecil.

Você odiaria não poder chamar mulheres na rua de bonitas? Não consigo nem dizer “oh, coitado” ironicamente. É difícil eu me comover com o seu suposto sofrimento nesse cenário ainda hipotético, menino. Isso porque estou ocupada odiando o motorista do carro que diminui a velocidade à noite para tentar conversar comigo enquanto volto pra casa. Estou ocupada odiando ter que deixar meu vestido predileto no armário pois quando o usei da última vez tive que apressar o passo enquanto um cara num boteco comentava sobre minha bunda. Estou ocupada odiando cada sorriso malicioso, cada elogio impensado, cada ofensa. Estou ocupada odiando o medo do ataque, da violência, do estupro – estou ocupada sentindo medo. Estou ocupada odiando o assédio que meninos como você consideram elogio.

Não cabe a você decidir o que é ofensivo. Assim como não cabe a você, que produz um discurso como esse, dizer que mulheres assediadas “devem ir pra delegacia” como se na delegacia ela não fosse ouvir exatamente os mesmos argumentos que você usa pra justificar sua cantada empregados para diminuir o peso do assédio que elas sofreram. Quem decide o que é ofensivo somos nós, menino, as pessoas que sofrem com a ofensa. E o seu “você é linda” é ofensivo. Ele não é ofensivo porque eu não quero ser linda, porque eu tenho problemas de auto-estima, porque eu não sei aceitar elogios, porque eu sou tímida e tive um dia ruim. Ele é ofensivo por você achar que sua aprovação sobre o meu corpo é importante para mim. Ele é ofensivo porque te coloca em posição de avaliar se eu valho ou não essa aprovação. Ele é ofensivo porque, se existem mulheres que sentem que precisam da aprovação de homens – aliás, meninos – como você, é porque vivemos numa sociedade machista que nos diz, desde cedo, que é a opinião de meninos como você que importa. E nenhuma mulher precisa da sua aprovação porque ela não é importante. Nem um pouco.

Seu “você é linda” para uma mulher andando na chuva é tão ofensivo quanto um “gostosa” no beco escuro, quanto um “te chupo todinha” sussurrado no metrô, quanto um assobio, uma buzinada, uma passada de mão. Você não conhece aquela mulher que está na chuva. Você não sabe se ela está de mau humor, se ela sofreu abuso, você não sabe se ela quer seu elogio barato e vazio. Você não sabe. Você só assume que ela quer porque desde que era menino te ensinaram que mulher precisa de aprovação masculina pra se sentir completa. Isso não é verdade, então você não sabe. Já que você não sabe, qualquer coisa, por elogiosa que você a considere, é um assédio. E você não tem direito, menino.

Vou repetir isso: você não tem esse direito. Não. É “não”, e ponto. Talvez a sociedade tenha te mimado de privilégios e seja difícil pra você ouvir um não. Afinal, segundo você, as pessoas têm dificuldade de comunicação. Então é esse seu problema? Você não sabe ouvir um “não”, menino? Se for, eu só tenho mais motivos pra te achar um imbecil. Uma pessoa que não sabe ouvir “não” já me agarrou para me beijar a força. Uma pessoa que não sabe ouvir “não” já me empurrou contra a parede. Pessoas que não sabem ouvir “não” estupram mulheres todos os dias. E, adivinha? Estupradores chamam suas vítimas de “lindas”. De “meu amor”. De “anjo”. Assim como chamam suas vítimas de “vadia”, “puta”, “verme”. As palavras doces de um estuprador não o inocentam de seu estupro. As suas palavras doces não te inocentam do seu assédio.

Menino, se você tiver alguma dúvida, eu te digo o que fazer: cala essa boca. Não diz nada. Sua opinião não é importante, então pode se acanhar o quanto for preciso. Coloca o dedo na boca, se precisar, combina com a sua mentalidade de menino. O importante é você ficar quietinho, no seu lugar, do jeito que você espera que mulheres fiquem no delas. Talvez seja difícil parar de falar babaquice, afinal, isso parece ser um costume seu. Mas você consegue, menino.

(E, sinceramente, menino, eu não ligo a mínima pro que os homens adoram)

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Autor:

21 anos, social media, estudante de moda, amante das artes com uma boa dose de feminismo.

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7 comentários em “Resposta à “você é muito bonita””

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  • Pedro Larquer volte duas casas e releia o texto, por favor… parece que você não entendeu o tamanho da coisa. Ah, e toda aproximação não desejada é assedio, sim senhor! Não existe guerra entre homens e mulheres, isso é um argumento vago. Eu quero ter o mesmo direito que você de andar na rua tranquilamente sem nenhum babaca achar que eu preciso de palavras "doces" para melhorar o meu dia. Isso não melhora. Só piora. (Viu? isso é direito à igualdade, e não uma guerra)

  • Pedro Larquer disse:

    O rapaz do texto certamente não está defendendo homens que dizem que vão "arregaçar a sua bunda", até porque a maioria esmagadora dos homens não dizem esse tipo de coisa nem para mulheres com quem têm intimidade. Eu até entendo os motivos que levam as mulheres mais "nervosinhas" a querer generalizar esse tipo de coisa, mas talvez não seja a alternativa mais eficaz. Colocar todos os homens numa caixa e rotular qualquer atitude de aproximação com uma mulher de ASSÉDIO, é um jeito muito interessante de promover uma verdadeira guerra (anunciada) entre homens e mulheres. Seria mesmo esse o melhor caminho?

  • Mariana Rezende disse:

    Não há consenso quando há assédio, Pedro. O único "consenso" que vc acha que ele está tentando buscar é o de que homens podem assediar mulheres e que elas DEVEM gostar disso, pq isso a ~valoriza~. Oi?

    Que tal se colocar um pouco no lugar de quem ouve essas merdas de homens todos os dias? Difícil? Imagina um homem bem maior e mais forte que você dizendo que tá louco pra entrar em vc, arregaçar a sua bunda. O que vc faz? Corre? Fica com medo? Tenta assertar um chute nas ~partes~ dele?

    Consegue imaginar? Difícil, né?
    Você é homem, a probabilidade disso acontecer com vc é muito pequena.

  • Pedro Larquer disse:

    Nossa, pegou muito pesado com o rapaz…a intenção dele foi tentar chegar a um consenso…

  • Anna Valle disse:

    Realmente és uma interessante reflexão, é exatamente isso o q mts mulheres pensam. Este texto e a pesquisa de Olga, mostram o tamanho e a natureza do problema em que vivemos nos dias de hj.